9 de julho de 2015

Alexis , Yanis e a falácia utópica


Há uns dias atrás, alguém desabafava, nesta vasta rede social que dá pelo nome de Facebook, de que assistira a um debate em que um dos interlocutores teria dito que era grande a probabilidade de uma guerra na Europa lá para 2020. E, sim, é verdade, é uma plausibilidade. No entanto, este espetro tem estado sobre as nossas cabeças desde há muitas décadas, com especial incidência nos anos da Guerra Fria. Houve momentos nos últimos 60 anos em que a Europa esteve muito mais à beira de um conflito do que hoje. Esta, não sendo uma ideia descartável, não deixa de valer o que vale no campo das probabilidades, ou seja, pouco. Não deve ser posta de parte, ou refutada. Há hoje, em todo o perímetro Ocidental, uma crise aguda, com várias camadas, em diversos tempos, de diferentes naturezas – confinar a crise a meras questões contabilísticas, é redutor e irreal. A crise é mais do que isso, mais profunda, mais subjetiva, mais complexa. E enquanto olharmos para ela com os filtros de um passado reacionário – o dizer por exemplo vem aí uma guerra – ou com filtros demasiado vanguardistas – dizer, por exemplo, “no pása nada” - estaremos a fazer juízos pouco isentos sobre esse mesmo passado, quase exclusivamente porque isso traz um pensamento político agravado que não o atual vigente.
Portanto, deve ter-se uma nova abordagem da História para que possamos também ter uma visão clara e coerente do futuro de curto e de longo prazo.
Ou seja: dizer-se hoje que a Europa não tem futuro e que poderá estar em guerra em 2020 é contribuir drasticamente para que este estado de coisas surja como natural e consequente, e não é nem uma perspetiva irrealista, nem uma perspetiva pessimista; É pior ainda, é falar contra o próprio processo político e económico europeu. Eu cresci a sonhar com um ideal europeu, fosse ele qual fosse. Não vou desistir, muito menos falar mal dele. E não é por uma crise alimentada por um país membro de pleno direito, e recetor de ajuda financeira sem fim e de know how, que desistiremos do sonho.

O futuro da Europa passa por padrões sustentados de desenvolvimento, pelo cumprimento de apertadas regras contabilísticas, emanadas, claro, de um centro gravitacional de poder político e económico chamado Bruxelas. E isso já todos percebemos. Resta saber o que estamos dispostos a fazer para manter esse ideal? E por se tratar de um ideal, isto é, de um processo que exige dinâmica e realismo, não devemos, nem podemos, acreditar nas falácias próprias das mentes utópicas (helénicas): a de que vai correr tudo bem (falácia da melhor das hipóteses) e a de que somos todos iguais (a falácia do nascido livre). Estas duas tiveram, citando Roger Scruton, na origem da política de massas do nazismo e do comunismo e contaminaram toda a cultura do século vinte, com resultados visivelmente nefastos para a Humanidade. E se a Utopia tem origem em pressupostos falaciosos, e tudo o que criou foi a destruição do próprio Homem, então o teatro da História ensina-nos os caminhos que não devemos seguir ou acreditar. E, sim, é mais que tempo da Europa acordar e colocar a mão na massa. Pode ser que esta crise tenha servido para isto mesmo. E urge defender aquilo que somos.

in Açoriano Oriental, 9 de julho de 2015

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