Miguel Sousa Tavares (MST) é um autor de best sellers. Contudo, não é um autor à moda antiga, ou seja, não é um José Saramago ou um António Lobo Antunes, cuja fama, ganha com muito suor e lágrimas de cada vez que escreviam um livro, foi conquistada progressivamente. Com MST foi diferente: a fama e o sucesso sempre bateram à porta, e foi com Equador que se viu impelido definitivamente para a imortalidade. Talvez por isso, MST é um autor moderno, arejado, pertencente à geração média do 25 de abril. Já José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, et alii, ao contrário, podem ser chamados de Geração Nova da Revolução dos Cravos. Indo lá atrás, Saramago sofreu na pele a ditadura de Oliveira Salazar; MST é o exemplo da geração que mais beneficiou com a Revolução, porque teve as oportunidades todas; José Luís Peixoto é a geração liberta e desprendida deste passado recente e castrador.
Mas voltando a MST. Numa longa e sempre intrigante entrevista à Revista Ler de Setembro, o jornalista (é mais entrevistador: Carlos Vaz Marques) procura dissecar a sua vida passada, presente e futura. Mas da entrevista, gostaria de transcrever duas passagens que me marcaram: 1. À pergunta «Como é que foi a sua educação literária?», a resposta veio breve e lacónica «Foi muito básica. Muito simples.», nova interpelação e finalmente a resposta (mesmo simples) «Foi simples. Havia a estante do meu pai e havia a estante da minha mãe. Na estante do meu pai, os livros estavam arrumados por género, como estão nas estantes das pesssoas normais. Estavam arrumados também por alturas. Ou seja, nas prateleiras de cima estavam os livros mais picantes (...). Na estante da minha mãe era mais simples mas para nós mais complicada. Ela não arrumava por géneros, arrumava de uma forma extraordinária que eu nunca vi: os livros de que eu gosto e os livro de que eu não gosto.»; 2. A outra pergunta, se «Admite que o Ulisses é mais importante em termos literários por ser algo de novo?», a resposta pouco católica vem assim: «Já fiz três tentativas para o ler e não consegui. De boa-fé, não posso dizer: Ouço contar que é um dos livros determinantes da História da Literatura. Isto faz-me lembrar uma coisa que o meu pai dizia: "Quanto encontrar um gajo que tenha lido O Capital, do Marx, dou-lhe um presente. Todos dizem que leram mas ninguém leu."». É por esta (e por outras) que gostamos mesmo dele. E em matéria de arrumação de livros nas estantes, cada qual sabe de si.