6 de setembro de 2009

E Você, já Leu?

Miguel Sousa Tavares (MST) é um autor de best sellers. Contudo, não é um autor à moda antiga, ou seja, não é um José Saramago ou um António Lobo Antunes, cuja fama, ganha com muito suor e lágrimas de cada vez que escreviam um livro, foi conquistada progressivamente. Com MST foi diferente: a fama e o sucesso sempre bateram à porta, e foi com Equador que se viu impelido definitivamente para a imortalidade. Talvez por isso, MST é um autor moderno, arejado, pertencente à geração média do 25 de abril. Já José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, et alii, ao contrário, podem ser chamados de Geração Nova da Revolução dos Cravos. Indo lá atrás, Saramago sofreu na pele a ditadura de Oliveira Salazar; MST é o exemplo da geração que mais beneficiou com a Revolução, porque teve as oportunidades todas; José Luís Peixoto é a geração liberta e desprendida deste passado recente e castrador.
Mas voltando a MST. Numa longa e sempre intrigante entrevista à Revista Ler de Setembro, o jornalista (é mais entrevistador: Carlos Vaz Marques) procura dissecar a sua vida passada, presente e futura. Mas da entrevista, gostaria de transcrever duas passagens que me marcaram: 1. À pergunta «Como é que foi a sua educação literária?», a resposta veio breve e lacónica «Foi muito básica. Muito simples.», nova interpelação e finalmente a resposta (mesmo simples) «Foi simples. Havia a estante do meu pai e havia a estante da minha mãe. Na estante do meu pai, os livros estavam arrumados por género, como estão nas estantes das pesssoas normais. Estavam arrumados também por alturas. Ou seja, nas prateleiras de cima estavam os livros mais picantes (...). Na estante da minha mãe era mais simples mas para nós mais complicada. Ela não arrumava por géneros, arrumava de uma forma extraordinária que eu nunca vi: os livros de que eu gosto e os livro de que eu não gosto.»; 2. A outra pergunta, se «Admite que o Ulisses é mais importante em termos literários por ser algo de novo?», a resposta pouco católica vem assim: «Já fiz três tentativas para o ler e não consegui. De boa-fé, não posso dizer: Ouço contar que é um dos livros determinantes da História da Literatura. Isto faz-me lembrar uma coisa que o meu pai dizia: "Quanto encontrar um gajo que tenha lido O Capital, do Marx, dou-lhe um presente. Todos dizem que leram mas ninguém leu."». É por esta (e por outras) que gostamos mesmo dele. E em matéria de arrumação de livros nas estantes, cada qual sabe de si.

10 comentários:

Paula disse...

Olá Luís,
MST pode ter tido uma educação literária básica, mas não deve ter ficado indiferente ao que a sua mãe escrevia. Será que de certa forma não o influenciou? De acordo com o que o Luís escreveu (eu ainda não comprei a revista, não estava disponível ainda na B :) ), a forma como ele respondeu à entrevista, desviou qualquer ligação neste sentido.
As estantes…as minhas estão por género e dentro deste os livros estão divididos entre clássico e contemporâneo. Os que gosto mais estão à mesa-de-cabeceira para ir relendo páginas que abro ao acaso.
Gostei da forma que MST respondeu à pergunta Ulisses…

NB: Parabéns pelas fotos que coloca no cabeçalho do blog.

Cumprimentos.

Luís Almeida disse...

Cara Paula,
Agradeço imenso os seus comentários. Como deve ter percebido o MST é um autor pragmático no modo como encara a importância e a quase obrigatoriedade de leitura dos clássicos (ou de alguns). Algures na mesma entrevista refere-se a Tchékov como um autor indispensável, mas não se põe a dizer por isto ou por aquilo. Eu acho que a leitura é livre, e cada um lê conforme as expectativas que tem sobre o texto.
Durante a entrevista é claro que ele fala sobre a mãe... Não posso transcrever tudo senão perde a piada, :)
Quanto à arrumação das estantes, eu já perdi qualquer espécie de critério, arrumo os livros, vou arrumando, e pronto!
Agradeço o elogio às fotos, são cá da casa e dos passeios que se fez este Verão.

:)

Fiat Lux disse...

Não li Ulisses.
Não li O Capital...
Não li o Equador.
Aliás, ainda não li nada de MST além das crónicas n'A Bola.
Ainda não me apeteceu.

Luís Almeida disse...

Caro Fiat Lux,

Nem é obrigado a ler nenhum destes títulos. Eu não sou daqueles que defendem que ler isto ou aquilo é fundamental, ou indispensável. Olhe a sapiência das palavras do Francisco Sousa Tavares, pai do MST: quem disse que leu «O Capital» do Marx, mente, porque ninguém leu «O Capital». Claro que alguns o leram.
Já tentei ler «A Montanha Mágica» do Thomas Mann, e que todos dizem ser obra-prima, mas... Não sei bem porquê... Aliás, sei exactamente porquê, não li. Fiz questão de não ler. Mas será isso crime de lesa majestade? Não, não é. Daí ter indisfarçadamente elogiado o MST, é um indivíduo moderno e arejado nesse sentido, despretencioso. Aconselho a ler a entrevista que dá à revista LER.
Já agora, Fiat Lux, além das crónicas dele em A BOLA, que mais anda a ler?

:)

Fiat Lux disse...

Ainda Murakami.
Pelo nome do blog deduzo que aí estamos de acordo :)

Luís Almeida disse...

Caro Fiat Lux,

percebi bem que anda lendo Murakami? Concretamente o quê?

Fiat Lux disse...

Ainda ando em busca do carneiro selvagem :)

Luís Almeida disse...

Caro Fiat,
é fácil: quanto mais longa for a busca mais difícil se torna o encontro... :)
É apenas mais um grande livro.

Paula disse...

Eu ando à procura do "Pássaro de Corda", mas ainda não o vi nas livrarias :)
Tenho de o encomendar...

Paula disse...

Ofereceram-me "Crónicas de um pássaro de corda" do Murakami :)
Estava difícil encontrar...
Agora é só arranjar um tempinho para ler!
cumprimentos!